Movimento por revisão de tarifaço de Trump contra o Brasil começa a tomar forma também nos EUA
Começa a ganhar corpo também nos Estados Unidos o movimento pela revisão da tarifa de 50% a produtos importados do Brasil, anunciada pelo presidente norte-americano Donald Trump na semana passada.
Nesta terça-feira (15), a U.S. Chamber of Commerce e a Câmara Americana de Comércio para o Brasil (Amcham Brasil) divulgaram, à imprensa brasileira e estadunidense, uma nota na qual pedem que os dois países “se engajem em negociações de alto nível a fim de evitar a implementação da tarifa”.
“A tarifa proposta de 50% afetaria produtos essenciais às cadeias produtivas e aos consumidores norte-americanos, elevando os custos para as famílias e reduzindo a competitividade de setores produtivos estratégicos dos Estados Unidos”, diz a manifestação.
As entidades citam que 6,5 mil pequenas empresas nos Estados Unidos dependem de produtos importados do Brasil e prega “uma solução negociada, pragmática e construtiva” para manter o comércio bilateral entre Brasil e Estados Unidos.
A U.S. Chamber of Commerce é a maior organização empresarial do mundo, representando empresas de todos os portes e setores da economia. Seus membros incluem desde pequenos negócios e câmaras de comércio locais até grandes corporações e associações setoriais.
A Amcham Brasil, que subscreve a nota, terá reunião com o vice-presidente e ministro do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, Geraldo Alckmin, nesta quarta-feira (16).
Na terça, Alckmin teve encontros com representantes do setor produtivo brasileiro. Após estes debates, em coletiva à imprensa, destacou a intenção de mobilizar também empresários dos EUA:
— Todos eles (participantes do encontro) se comprometeram a participar e trabalhar com seus congêneres. Exportam para os Estados Unidos, têm importadores lá, ou vice-versa, importam dos Estados Unidos, às vezes você tem cadeias integradas. Então, trabalharmos também os empresários americanos, mostrando que isso tem um prejuízo não só para o Brasil, mas também um prejuízo para a população americana, porque há uma complementariedade econômica.
Além de Alckmin, falaram na coletiva representantes de setores econômicos e vários deles ressaltaram o impacto para a economia dos EUA da medida de Trump, como o presidente da Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carnes (Abiec), Roberto Perosa:
— Nós hoje complementamos a produção americana, o produto americano está no seu menor ciclo pecuário dos últimos 80 anos, e o Brasil exporta praticamente o que é utilizado na indústria americana para fazer hambúrguer, ou seja, recortes do dianteiro do boi, carnes não tão consumidas no Brasil, mas que têm importância econômica para os EUA.
Questionado por um repórter se a taxação faria a carne ficar mais cara, Peroza respondeu:
— Nos Estados Unidos, com certeza.
Presidente do Conselho dos Exportadores de Café do Brasil (Cecafé), Márcio Ferreira, destacou que o Brasil responde por um terço do café consumido nos Estados Unidos.
— Tive contato com outros importadores, os maiores americanos, e eles estão exatamente nesse sentido (de dialogar para evitar a taxação). É extremamente inflacionário para a população americana. Café não é produzido nos Estados Unidos, então não concorre contra o agro americano.
Representando a Associação Brasileira da Indústria do Café, o presidente Pavel Cardoso reforçou que há movimento nos Estados Unidos para evitar a taxação:
— Há todo um sentimento do setor de que isso seja resolvido.
Ibiapaba Neto, presidente da Citrus BR, associação que representa exportadores de suco de laranja, foi na mesma linha:
— Do total que eles importam, 70% são de suco brasileiro. Então, nós temos uma ligação muito forte, uma interdependência com as empresas americanas, que certamente estão bastante preocupadas, também cientes e atuantes nesse assunto.
A Confederação Nacional da Indústria (CNI) divulgou nota destacando a importância da “contundente manifestação” da U.S. Chamber of Commerce e da Amcham Brasil. “Contar com a voz ativa de líderes empresariais dos Estados Unidos fortalece nossas negociações e evidencia que essa medida é danosa não só para o Brasil, mas também para as empresas e consumidores americanos”, diz o comunicado, assinado pelo presidente da CNI, Ricardo Alban, que participou da reunião com Alckmin.
Entre os empreendedores reunidos com o vice-presidente da República na terça, houve consenso de que é preciso negociar a revisão do tarifaço. Muitos pediram que o governo busque a ampliação em 90 dias do prazo para que a medida entre em vigor — inicialmente previsto para 1º de agosto —, mas o vice-presidente brasileiro destacou que, a princípio, não há essa intenção. O objetivo do governo, afirmou, é “procurar resolver até o dia 31 de julho”.
— Nós temos aí os próximos dias muito importantes para a gente reverter um quadro que não tem a menor lógica do ponto de vista econômico nem comercial. É prejudicial ao Brasil e é prejudicial aos Estados Unidos — avaliou Alckmin.
ZH

