“Hoje, os queijos gaúchos competem de igual para igual com importados”, diz representante dos laticínios no RS
Conhecido por suas tradições no campo e na mesa, o Rio Grande do Sul provou que tem excelência também na produção de queijos artesanais. Na Expoqueijo Brasil 2025 – Araxá International Cheese Awards, realizada no fim de junho em Minas Gerais, o Estado conquistou sete medalhas, ficando entre os maiores premiados do país, ao lado de São Paulo e Amazonas, e atrás apenas da anfitriã Minas Gerais, que levou 67 distinções. Presidente da Associação Gaúcha de Laticinistas e Laticínios (AGL), Alexander de Liz falou para o Campo e Lavoura da Gaúcha deste domingo (20) sobre os bastidores da premiação e o avanço na qualidade dos produtos artesanais. Confira trechos abaixo.
O que é a Expoqueijo Brasil?
A Expoqueijo é o maior evento de queijos que existe na América Latina. É a Copa do Mundo dos queijos das Américas. Tem como objetivo principal ressaltar os melhores produtores e os melhores produtos que existem no momento. Neste ano, 19 países participaram, com mais de mil queijos inscritos.
Como funciona a competição?
O sistema de julgamento dos queijos, da ExpoQueijo é muito diferente dos outros. Nela, não se premia queijos simplesmente por nota. Se premia somente o melhor queijo de cada categoria. O melhor terá ouro, o segundo melhor, prata, e o terceiro, bronze. Então, é um concurso muito mais difícil.
O Rio Grande do Sul foi um dos Estados que se destacou nesta edição, com sete medalhas.
Graças ao empenho do nosso produtor em querer fazer sempre melhor. Apesar do Estado não ser reconhecido como um grande produtor de queijo, hoje tem se destacado muito pela qualidade desses produtos. Hoje, os queijos gaúchos competem de igual para igual com produtos importados.
O que o Estado tem feito para se despontar em premiações nacionais e internacionais, como essa?
Primeiro, com atenção à qualidade da sua matéria-prima. Nós tínhamos o costume de achar que leite bom era do Uruguai, da Argentina, do Chile. Mas o Rio Grande do Sul também produz leite de qualidade. Todas essas questões relacionadas ao leite (Operação Leite Compen$ado) só ocorreram, por exemplo, porque há todo um trabalho preocupado com a qualidade do produto.
Mas houve uma mudança recente, inclusive de legislação.
O queijo sempre fez parte do Rio Grande do Sul. O Estado, inclusive, é muito famoso por dois queijos em particular: o queijo artesanal serrano, dos Campos de Cima da Serra, e o queijo colonial, que é feito em toda a região sul do Brasil. No entanto, até pouco tempo atrás, o Brasil sequer tinha uma legislação própria para queijos artesanais. Isso dificultava muito o produtor ter acesso a uma cultura queijeira de melhor qualidade, entender os processos, entender até a parte técnica do queijo. Depois de 2020, quando a legislação se abriu ao produtor artesanal e ele pôde comercializar em todo o território nacional, começou-se a acessar também outras qualificações, como os concursos. E o concurso dá uma coisa muito mais importante do que medalhas: o feedback. Com isso, o produtor pode melhorar o seu produto. Fora isso, não podemos esquecer das entidades gaúchas que se dedicam ao produtor rural, ajudando a melhorarem na parte genética, na elaboração do produto, na qualidade da matéria-prima.
Produzir queijos dentro da propriedade também é uma forma de agregar valor à matéria-prima, neste caso, o leite.
Sim. Agrega valor e influencia em uma coisa muito importante que achávamos que estava perdido: o retorno da família para o campo. Se falava muito em êxodo rural porque a atividade leiteira e queijeira não era rentável. Vendia-se um produto que era ilegal e a preço de banana. O produtor praticamente pagava para vender. Nenhum filho quer ficar no interior trabalhando com os pais dessa maneira. Mas quando o queijo passou a ser um produto de qualidade e quando o consumidor começou a valorizar esse produto, o produtor começou a se sentir melhor e a investir mais na sua produção. E os filhos desse produtor passaram a ter orgulho dos pais.
Os jurados percebem essa evolução?
Sim. Nós ouvimos muito isso da boca dos jurados internacionais que nos acompanham durante muitos anos em concursos. Para eles, é muito clara a evolução que existe no queijo gaúcho.
Nesta edição, houve uma quantidade menor de queijarias inscritas. Ainda assim, muitas medalhas. É efeito ainda da enchente de 2024?
É, quando houve a enchente, não foram só as águas que cobriram os produtores e as suas fazendas. A parte que não foi coberta pelas águas, a chuva também maltratou muito: lavou terras, destruiu plantações, fazendas perderam inúmeros animais. E, neste ano, mais uma vez. Isso fez, então, com que muitas propriedades não tivessem tempo nem condição de se recuperar totalmente. O que levou a um baixo número de inscritos nos concursos. A gente sabe que o Rio Grande do Sul ainda está se levantando, o produtor rural de queijo artesanal ainda está engatinhando tanto quanto na sua recuperação após as tragédias. Demora um, dois anos para poder voltar às mesmas condições que nós vinhamos produzindo.
ZH


