Produção agrícola sustentável se apresenta como alternativa frente aos desafios do clima
Ainda cicatrizando da sua maior tragédia climática, o Rio Grande do Sul vê o futuro da economia vinda da terra como uma das suas principais preocupações. A produção de alimentos tem novos desafios em meio às mudanças do clima, exigindo adaptações que incluam práticas de manejo cada vez mais sustentáveis. O trabalho de formiguinha começa na lavoura, pelas mãos de quem busca preservar para então produzir.
Do pequeno ao grande produtor, as técnicas adotadas são tendências que viram vitrine para o mundo. Os modelos produtivos incluem a intensificação do plantio direto, a diversidade dos cultivos e o olhar mais atento aos produtos biológicos.
Para marcar o Dia do Agricultor, celebrado neste 28 de julho, Zero Hora ouviu profissionais que buscam na preservação o futuro da atividade.
De vida urbana até os anos 1990, a engenheira agrônoma e agricultora Silvana Bohrer, 63 anos, migrou da cidade para o campo motivada pelo incentivo à produção orgânica. Hoje à frente do Sítio Capororoca, no Lami, extremo sul de Porto Alegre, comanda junto da irmã dois hectares de cultivos biodiversos, das frutas às hortaliças.
A propriedade integra a Associação dos Produtores da Rede Agroecológica Metropolitana (Rama) e faz a formação de outros agricultores nos princípios agroecológicos por meio de cursos. Com os vizinhos, forma um núcleo de oito locais focados na produção orgânica na zona rural de Porto Alegre, a segunda maior em área entre as capitais brasileiras.
O sítio tem o sistema de agrofloresta como norte da atividade agrícola, cujo manejo combina árvores e culturas diversas numa mesma área, imitando os processos naturais da floresta e proporcionando um cultivo mais sustentável. A propriedade também utiliza insumos produzidos por ela mesma, como adubos e fertilizantes.
— O que fazemos é trabalho de formiguinha. Mexer na terra é muito gratificante. A melhor coisa é fazer a roda girar e dar o exemplo. Não tem como produzir sem impacto, então a ideia usar ao máximo o que tem de disponível no local — diz Silvana.
Os pomares e as hortas convivem na mesma porção de terra, enriquecendo o solo com a maior quantidade possível de matéria orgânica. A produção diversa, além de equilibrar o ecossistema, varia as opções de renda dos agricultores.
— É um manejo que permite ter fruta e ter matéria, assim, não precisa estar adubando o tempo todo — explica a produtora.
O Sítio Capororoca é referência na produção agroecológica. Seus produtos in natura e os processados na agroindústria, como pães e geleias de fruta, são comercializados aos sábados na Feira Ecológica de Porto Alegre, a mais antiga de orgânicos do país.
Sobre o futuro da atividade e a necessidade da adaptação sustentável, começar aos poucos é um bom início, diz a agricultora, citando que muitos produtores vêm fazendo a transição dos modelos tradicionais de agricultura para uma gestão mais ecológica.
Ecologia e matemática
As iniciativas de produção que se adaptem ao momento do clima estão em todos os cantos do Estado, inclusive nas grandes fazendas. No Noroeste, um dos exemplos fica nas terras de Jorge Strobel, 57 anos, produtor de grãos de verão e de inverno nos municípios de Panambi e de Condor.
Entre as técnicas, ele aplica a cobertura de solo e a adubação orgânica como formas de fortalecer a terra. São 3,2 mil hectares de área dedicados aos plantios somente na Fazenda da Taipa, em Condor, onde a soja é o carro-chefe.
Parte dos adubos orgânicos utilizados é feita na própria fazenda, a partir dos resíduos da pecuária de leite. Ainda que mantidas em áreas separadas, a relação entre ambas as produções é uma maneira de promover a integração lavoura-pecuária, diz Strobel, fazendo sentido no sistema produtivo como um todo.
A adubação orgânica está presente na propriedade há mais 20 anos. Ela ativa a vida microbiana do solo, fornecendo nutrientes necessários para a planta e para a terra. Além da finalidade ecológica, é uma questão matemática: Strobel relata que o uso tem sido ampliado também em razão dos preços dos insumos, em cenário de alta.
Outra parte dos recursos orgânicos vem da biofábrica. Uma estrutura instalada na fazenda há quatro anos produz microrganismos a partir da ação das bactérias que são aplicados como inseticidas e fungicidas em substituição aos químicos tradicionais.
— Produzir de forma sustentável é uma questão de viabilidade das lavouras. A agricultura é muito dinâmica. E tem muita coisa boa vindo da pesquisa — diz o produtor.
Já na cobertura de solo, feita com as chamadas “plantas de serviço”, o intuito é proteger o bem maior da propriedade, que é a terra produtiva. A ausência desta camada de proteção foi um dos fatores que fez as enchentes de 2024 serem tão prejudiciais ao solo no Rio Grande do Sul, por exemplo, tornando a terra exposta.
— Uma grande preocupação que temos é a questão erosiva do solo. Por isso procuramos nunca deixar a terra sem cobertura, protegendo o impacto de cada gota que cai. Temos consciência disso e queremos proteger — diz Strobel.
Segundo especialistas, as ações de sustentabilidade são parte do enfrentamento às mudanças do clima, mas também opção de rentabilidade maior na agropecuária. Buscar adubações mais em conta e racionalizar o uso dos químicos, além de ter efeitos no bolso, sobrecarrega menos o ambiente, sem deixar de produzir.
Veja práticas sustentáveis de adaptação climática:
- Plantio direto
- Integração de lavoura, pecuária e sistemas agroflorestais
- Uso de bioinsumos
- Florestas plantadas
- Manejo de resíduo animal a partir de biodigestores e biofertilizantes
- Sistemas irrigados
- Terminação intensiva na pecuária
- Recuperação de pastagens degradadas
Fonte: Plano ABC+
ZH


