Vendas no comércio gaúcho crescem 4,2% no ano, mas com perda de ritmo; tarifaço de Trump deve manter desaceleração no setor
Em cenário marcado por abalo na relação comercial entre Estados Unidos e Brasil, inflação persistente e juro alto, o comércio varejista do Rio Grande do Sul segue no azul no acumulado do ano, mas mostra sinais de perda de ritmo ao longo dos últimos meses (veja no gráfico abaixo). No agregado até junho de 2025, o varejo apresenta alta de 4,2% no volume de vendas no Estado — acima da média nacional (1,8%).
O fim de alguns incentivos pós-inundação e o efeito cheio do juro na economia ajudam a explicar essa acomodação, segundo especialistas. Para os próximos meses, estimam continuidade desse processo de desaceleração, com o acréscimo de eventuais efeitos secundários do tarifaço do governo de Donald Trump contra produtos brasileiros.
Quando comparado ao mesmo período de tempo do ano passado (7%), o comércio varejista também registra pé no freio — além de anotar duas quedas seguidas no mês a mês: 1,9% em maio e 0,5% em junho. Os dados são da Pesquisa Mensal de Comércio (PMC), do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), divulgada nesta quarta-feira (13).
O economista-chefe da Câmara de Dirigentes Lojistas (CDL) de Porto Alegre, Oscar Frank, lembra que, em 2024, o Estado recebeu uma série de incentivos para combate aos efeitos da inundação, que acabaram estimulando a compra de itens no varejo, como móveis, eletrodomésticos, materiais de construção e itens de escritório. Essa ação impulsionou o volume de vendas:
— Na medida que o tempo foi passando, o efeito dessas políticas foi se esvaindo. Então, a gente tem observado gradualmente o comércio perdendo força, muito por conta de toda essa situação envolvendo o efeito dessas políticas arrefecendo com o passar do tempo. Era para ser algo pontual para nos ajudar naquele momento mais crítico.
O comportamento dos segmentos do comércio na pesquisa conversam com a análise do economista-chefe da CDL Porto Alegre. O ramo de vestuário apresenta a maior alta: 10,3% no acumulado do ano. Frank cita o peso do frio intenso, que impulsiona parte desse setor nas vendas.
Já na outra ponta, equipamentos e materiais para escritório, informática e comunicação e móveis e eletrodomésticos — que contaram com aumento de demanda no ano passado — apresentaram as maiores quedas neste ano.
Frank afirma que o fato de o Estado ter desempenho no volume de vendas maior do que a média nacional também responde ao que ainda resta dos estímulos no período da enchente. No entanto, conforme os meses passam, a distância entre Estado e país vem diminuindo com o esgotamento desse “bônus”.
Juro elevado
Além desse reflexo específico em solo gaúcho, Frank cita o efeito mais cheio do juro elevado sobre a atividade econômica. Atualmente, a Selic está em 15% ao ano. Um dos principais objetivos do juro elevado é frear a demanda para combater a inflação alta. Esse processo acaba desestimulando o consumo, respingando sobre vários setores, incluindo serviços e comércio.
O professor Maurício Weiss, do Programa de Mestrado Profissional de Economia (PPECO) da UFRGS, também afirma que o juro alto tem peso nessa desaceleração. Citando ações de “pé no freio e pé no acelerador”, ele exemplifica de forma geral como essa dinâmica ocorre, impedindo aceleração da economia como um todo:
— O cenário de juros desfavorece a dinâmica como um todo. Por outro lado, os estímulos fiscais através da correção do salário mínimo, de programas como Minha Casa, Minha Vida, atuação do BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social) e investimentos da Petrobras estimulam a economia. Por isso, ela ainda cresce, mas a taxas menores do que nos dois anos anteriores, muito por conta do juros alto.
Tarifaço pode desestimular consumo
Esse cenário de desaceleração do comércio varejista ocorre em meio ao tarifaço do governo de Donald Trump contra produtos brasileiros. O republicano impôs taxa de 50% em uma série de itens, como carnes, café e calçados. Com a sanção, cresce o temor por cortes em linhas de produção, férias coletivas e demissões. Essa conjunção de fatores pode desestimular o consumo.
O economista-chefe da CDL Porto Alegre afirma que todas essas incertezas externas, somadas aos problemas internos, acabam provocando um comportamento de “esperar para ver o que vai acontecer”:
— Isso naturalmente atua para, quem sabe, diminuir o ímpeto de contratações, diminuir a expansão de uma loja. Traz então esses atrasos com relação ao que é essencial para se gerar crescimento econômico. É um ambiente incerto e até de algum modo inóspito para que a gente possa ter um crescimento mais forte, por conta de diversos vetores, de diversas fontes.
Frank salienta que o tamanho da desaceleração até o fim do ano ou eventual queda dependem de como as pressões vão se comportar ao longo do segundo semestre.
ZH


