Em tempos de tarifaço aplicado pelos Estados Unidos e clima de incerteza entre os exportadores gaúchos, o primeiro semestre de 2025 foi de resultados positivos nos embarques ao Exterior. As exportações do Rio Grande do Sul somaram US$ 9,3 bilhões nos primeiros seis meses do ano, resultado 2,3% acima do mesmo período de 2024. Parte deste crescimento deve-se ao aumento das vendas à Argentina (leia mais abaixo).
Em termos nominais, foi o quarto maior valor da série histórica, iniciada em 1997, para um primeiro semestre. Os dados são do Departamento de Economia e Estatística, vinculado à Secretaria de Planejamento, Governança e Gestão (DEE/SPGG).
O desempenho gaúcho contrastou com o resultado nacional, que mostrou queda de 2,5% nas vendas externas no mesmo intervalo do ano. E reforça a vocação exportadora da indústria do Estado, como já classificado pela Federação das Indústrias (Fiergs).
Mas apesar da alta, o desempenho semestral poderia ter sido ainda maior, não fosse a redução nos embarques para a China, principal parceiro comercial do RS no Exterior. O recuo de 25,1% nas compras pelo país asiático se deu, sobretudo, pela venda menor de soja. Colhendo outra estiagem, o Estado teve quebra de 27% na produção do grão.
Impulso vem da Argentina
Na contramão do menor apetite chinês, o destaque do semestre foram as exportações para a Argentina, lideradas pelas compras de automóveis e maquinário.
China (15,8%), União Europeia (12,8%) e Estados Unidos (10,2%) permaneceram entre os principais destinos na produção gaúcha. Em termos absolutos, o destaque foi mesmo a Argentina como principal mercado em expansão. Foram mais de US$ 246,6 milhões em compras de produtos gaúchos pelos hermanos. Depois, vieram Indonésia (mais US$ 235,1 milhões) e Arábia Saudita (mais US$ 99,8 milhões).
Entre os produtos mais exportados, tiveram destaque no primeiro semestre de 2025 o aumento nas exportações de carne suína (35%), de cereais (11,6%), e de um item bastante particular: as máquinas de energia elétrica (173,7%).
— Algo impulsionado ainda no governo de Joe Biden (presidente anterior a Donald Trump), que criou um programa para a modernização do sistema elétrico nos Estados Unidos. Movimento vem sendo observado desde o ano passado — explica Leães.
Top 10
O ranking dos 10 principais produtos exportados no período é formado por:
fumo não manufaturado (US$ 1,1 bilhão)
soja em grão (US$ 809,0 milhões)
cereais (US$ 719,8 milhões)
carne de frango (US$ 625,7 milhões)
farelo de soja (US$ 577,1 milhões)
celulose (US$ 465,6 milhões)
carne suína (US$ 358,1 milhões)
polímeros de etileno (US$ 304,2 milhões)
partes e acessórios de veículos automotivos (US$ 289,9 milhões)
calçados (US$ 279,1 milhões)
A relevância dos itens acima listados na pauta exportadora, alguns deles alvos do tarifaço de 50% aplicado pelos Estados Unidos desde 6 de agosto, preocupa em relação ao desempenho do comércio internacional nos próximos meses.
No contexto tarifário, aponta o DEE, armas e munições (com 82,8% das exportações destinadas aos EUA), carne bovina (29,6%), calçados (24,8%), fumo e derivados (10,2%) e produtos florestais (20,8%) são os segmentos que exigem maior atenção.
Próximos embarques
Os efeitos reais da possível redução de vendas aos EUA estão sendo estudados pelo DEE. E consideram muitas variáveis. Uma delas tem a ver com a disponibilidade de produtos no mercado global.
A ausência imediata de fornecedores alternativos para os produtos taxados pode fazer com que as empresas norte-americanas sigam importando do Brasil — e do RS, mesmo com as novas alíquotas. Da mesma forma, uma espécie de “desvio de comércio” pode acontecer, com a realocação de itens em mais intensidade para países já compradores, como a Argentina, no caso das máquinas agrícolas.
— São muitas as variáveis. Em determinados mercados, mesmo com as tarifas, não é possível reduzir as demandas no curto prazo. Em alguns itens o comprador vai ter que pagar mais caro mesmo. É um pouco inelástico, porque não há como fugir disso — analisa o pesquisador do DEE sobre as dinâmicas para os próximos meses