Redução de tarifas dos EUA ainda não chegou a exportadores gaúchos, que recuperam parte das perdas com novos mercados
Ainda que celebrada pelo setor produtivo, a derrubada das tarifas de 50% impostas por Donald Trump há pouco mais de três semanas ainda não gera efeitos práticos na indústria gaúcha. Pelo menos não em relação ao mercado norte-americano. Contratos comerciais, em geral, levam tempo para serem firmados, e a imprevisibilidade em relação às decisões de Trump segue influenciando as intenções de negócios dos compradores.
O impacto da interrupção dos negócios ainda é forte em alguns setores, pela fatia que as exportações aos Estados Unidos representavam. Contudo, a busca forçada por novos destinos tem amenizado o prejuízo. Se em agosto de 2025 o estoque abarrotado de tonéis de mel era motivo de tensão em uma das principais exportadoras gaúchas, conforme mostrou reportagem de Zero Hora na ocasião do tarifaço, hoje o escoamento por meio de novos contratos é motivo de comemoração.
Diretor comercial da Honey Yards, empresa exportadora de mel com sede em Taquara, Luiz Schuh relata que o corte nas tarifas ainda não gerou nenhum impacto, e que os embarques aos Estados Unidos se dão em volumes muito baixos atualmente. A redução em quantidade hoje estimada pela empresa chega a 35% em relação ao que era exportado — mas chegou a ser de 62% em agosto do último ano.
— Vemos a redução das tarifas como algo positivo, mas ainda é cedo para saber. O tarifaço gerou muita incerteza no mercado lá e cá, e o mercado odeia imprevisibilidade. Contratos novos não foram feitos, por exemplo. E se antes compravam 10 contêineres, é como se hoje estivessem comprando um. Se enviávamos a cada mês, hoje é a cada 60 ou 90 dias. Com isso, o preço do produto acaba caindo também. Já reduziu 15% desde o tarifaço. Isso em dólar, que é como é negociado — diz Schuh.
Oitenta por cento da produção total da companhia é destinada à exportação. Deste percentual, 80% tinham os Estados Unidos como destino, por isso o forte impacto.
A adaptação ao cenário leva tempo, mas aos poucos os embarques estão sendo retomados, agora para novos mercados. Países da Ásia, Oriente Médio e Europa aparecem como importantes compradores de mel.
— O ponto positivo foi que diversificou os negócios e nos fez movimentar para não ficar restritos a um único mercado. A China é o maior produtor e exportador de mel, mas tem uma população grande, com poder aquisitivo bom e que busca produtos importados. É um mercado que se mostra bastante interessante — avalia o diretor comercial.
No dia 20 de fevereiro, quando a Suprema Corte dos Estados Unidos considerou ilegal o aumento de alíquotas do imposto de importação aplicado pelo presidente norte-americano, Trump reagiu e aplicou em seguida uma nova taxa global, agora de 10%, que começou a ser cobrada no dia 24. Mas mesmo com a redução do percentual, ainda há as chamadas “tarifas setoriais”, que incidem principalmente sobre bens ligados aos segmentos de aço e alumínio (50%), automóveis (25%) e madeira (10%).
Para a diretora-executiva da Associação Brasileira das Indústrias do Mobiliário (Abimóvel), Cândida Cervieri, a decisão da Corte retirou uma camada importante de pressão tarifária. No entanto, não significou normalização completa para o setor moveleiro, que segue sujeito à aplicação da chamada Seção 232, normativa que adota taxas adicionais a determinados setores. Neste segmento, a tarifa é de 25%.
Os móveis de madeira representam cerca de 30% das exportações brasileiras do setor para os Estados Unidos, e os reflexos das medidas aparecem nos dados mais recentes do ramo. Desde o anúncio das tarifas, o setor estima perdas entre US$ 70 milhões e US$ 90 milhões. Os polos industriais do Sul e do Sudeste estão entre as regiões mais sensíveis ao mercado norte-americano.
Segundo Cândida, as exportações brasileiras de móveis e colchões entraram em 2026 no vermelho. Em janeiro, os embarques somaram US$ 39 milhões, queda de 41,8% em relação a dezembro e recuo de 13,7% na comparação com janeiro de 2025.
— Embora o início do ano costume registrar menor ritmo de embarques, a intensidade da queda indica um ambiente de maior incerteza para os exportadores, especialmente após o choque tarifário imposto pelos Estados Unidos no segundo semestre de 2025 — contextualiza.
A diretora diz que as estratégias de realocação de mercados e remanejo da produção ajudam a mitigar parte dos impactos no curto prazo, mas que a recomposição plena dos negócios tende a levar tempo, “especialmente em um ambiente internacional ainda marcado por incertezas regulatórias e geopolíticas”.
O presidente da Federação das Indústrias do Estado do Rio Grande do Sul (Fiergs), Claudio Bier, reitera que a decisão sobre a derrubada das tarifas é um alívio parcial, porque ainda não se tem regras claras de como se dará a taxação no médio e longo prazo. Trump já manifestou o desejo de que as taxas sejam de 15% e não 10%, por exemplo. De qualquer forma, diz Bier, “ficou muito melhor do que estava”.
— Efeito prático ainda não tem, porque demora. Mas os representantes, os vendedores, já estão trabalhando para retomar pedidos. A taxa de 10% nós absorvemos, porque o mercado lá também tem muito interesse de comprar do Brasil. Para eles, é bom — diz Bier, lembrando que o RS foi o segundo Estado mais afetado pelo tarifaço.
Apesar do impacto brutal em algumas indústrias, o presidente da Fiergs também comenta que o tarifaço dos EUA teve o papel fundamental de acelerar o acordo entre o Mercosul e a União Europeia, assinado oficialmente em janeiro deste ano.
— No fim, o tarifaço teve o lado positivo de facilitar outros mercados. O acordo com o Mercosul só caminhou por causa disso, por exemplo. Não fosse essa crise, esse acordo não teria andado — destaca Bier.
ZH


